Na Grécia Antiga, a música não era apenas considerada uma arte. A música simbolizava uma forma de expressão sofisticada, usada constantemente como forma de comunicação direta com as divindades. Esse grau de importância dada à música fez com que ela se tornasse parte obrigatória na educação dos cidadãos gregos.

Naquele tempo, eles já tinham a convicção de que uma pessoa musicalizada não apenas teria mais qualidade de vida. Ela seria muito mais crítica e criativa para lidar com os problemas do cotidiano. Com alguns desses argumentos em mente, a música se tornou conteúdo obrigatório nas escolas de nível básico no Brasil por meio da lei 11.769, sancionada em 2008.

Após oito anos, o que se percebe é que muito pouco mudou. A música realmente faz parte do programa de ensino fundamental das escolas brasileiras, mas é o mesmo conteúdo antigo ministrado por professores sem formação específica. São conteúdos que tem uma relação distante com a música propriamente dita. Em sua maioria contextualizações históricas e literárias de movimentos e gêneros musicais.

Em muitos casos, não passam de análises de letras de música – uma estratégia que faz com que o surgimento da Bossa Nova, por exemplo, seja abordado em seu contexto histórico-político e não artístico-musical. Esse, definitivamente, não era o ideal grego de ensino de música que transformaria o cidadão. Até existe, atualmente, uma atenção maior para a cultura musical brasileira, mas não resolve o maior problema: a compreensão musical do brasileiro.

Hoje somos 200 milhões de técnicos de futebol e de músicos. O brasileiro tem o hábito de comentar a escalação de seu time com a autoridade de quem entende da grande ciência esportiva que se tornou o futebol. E age da mesma maneira quando fala de música. Há aproximadamente três anos, me deparei com uma imagem estarrecedora na rodoviária de Brasília. Era um cartaz creditado ao Jornal de Brasília com os seguintes dizeres: “Dúvidas de Português. Concerto ou conserto? Use concerto para dizer correção, reparo. Conserto é sinônimo de sinfonia, harmonia”. A imagem não é apenas absurda por terem trocado as palavras. Vai além! Mostra que o povo brasileiro em geral não tem intimidade com os conceitos mais básicos da música, as tais “noções básicas” previstas no conteúdo que deveria ser ministrado para os estudantes brasileiros. E esse caso, em especial, ilustra bem a realidade da educação musical no Brasil.

Cartaz sobre música

Concerto, caso estivesse relacionado como sinônimo das palavras sinfonia e harmonia, ainda assim estaria mal empregado. O brasileiro comum não sabe o significado real e técnico dos conceitos musicais mais elementares como melodia, harmonia e ritmo. Em geral, existe uma intuição, mas é um conhecimento muito mal acabado. Na última prova do Exame Nacional do Ensino Médio, havia apenas uma questão sobre música, o que me faz recapitular a sociedade grega antiga e a importância da música no desenvolvimento do ser humano. O item 48 pedia que o candidato identificasse o parâmetro do som que nos permite diferenciar uma flauta de um piano. Comemorei por não ser mais uma análise poética da letra de uma obra musical. Contudo, o item está mais relacionado à física e à acústica do que à música como arte. Apenas essa indagação não permite que avaliemos o conhecimento musical de alguém.

É necessário investir na formação de professores de música, educadores musicais especializados em ensino de música para “não instrumentistas” e inseri-los no mercado de trabalho de forma organizada. A música não serve apenas para os que querem aprender a tocar um instrumento. Música é uma forma de linguagem, uma comunicação que envolve aspectos matemáticos, filosóficos, literários e um tanto razoável de coordenação motora. A música pode envolver o movimento do nosso corpo, quando associada à dança, também pode ser um exercício puramente intelectual. Funciona como a gastronomia. Ao aprendermos a cozinhar, naturalmente desenvolvemos um paladar mais refinado. Passamos a identificar melhor os ingredientes que compõem uma iguaria.

Não pense que é por falta de recursos financeiros que o brasileiro deixa de se apropriar de conhecimentos musicais que podem fazer a diferença em sua formação. No Brasil, existem vários intelectuais brilhantes ligados à educação musical. É muito comum o músico ser visto como um prático ou performer, mas, aqui no país, temos alguns exemplos importantes como Lucas Ciavatta, idealizador do método O Passo, que ensina música na prática usando apenas as palmas para marcar o ritmo e o canto para entoar melodias. Existem ainda outras metodologias menos onerosas que poderiam ser aplicadas para iniciar a vivência musical das crianças em sala de aula, como a do austríaco Emile Jaques-Dalcroze – usando o movimento do corpo como elemento de representação das estruturas musicais.

Quando o assunto é Educação, o Brasil parece se adequar à boa parte das leis e das resoluções que são discutidas apenas no papel. A pouca vontade política e o excesso de burocracia parecem emperrar todo um processo de transformação. Enquanto não iniciarmos uma mudança real na forma de ensinar música nas escolas de nível básico, o brasileiro vai continuar sem compreender os valiosos conhecimentos contidos no som, na música. Voltando aos gregos, como já dizia Pitágoras: “Eduque as crianças para não seja necessário punir os adultos”. Na educação, o preço a se pagar é muito mais alto quando o trabalho não é bem feito desde o início.

E então? Qual é a música?