Suceder Agnelo Queiroz, no DF, não seria tarefa fácil pra ninguém. Seu governo deixou o legado devastador de um orçamento fictício, contas atrasadas, dívidas com fornecedores, salários não pagos, débitos não registrados, contratos duvidosos, obras paralisadas e promessas de aumento de salários a funcionarem como bombas de efeito retardado sobre o orçamento distrital.

O sucessor chegaria inevitavelmente embalado por promessas e expectativas de campanha, pela esperança do cidadão que vislumbra com ansiedade um novo tempo, uma nova ordem, um novo quadro, a boa mudança, enfim, e que reclama e se frustra quando as vê adiadas. A realidade, todavia, se impõe.

O primeiro ano do governo Rollemberg, portanto, foi dedicado a muito mais do que simplesmente “arrumar a casa”. No estado em que estava, era preciso compreendê-la, consertá-la, refazê-la. Desse modo, sua tarefa – que inevitavelmente é mediada pela dimensão política – tinha como foco efetivo o acerto administrativo e financeiro do DF, o equilíbrio entre despesas e receitas.

Para tanto, cortou gastos, diminuiu salários – inclusive o seu próprio e de secretários – atrasou e remanejou datas de pagamento de salários, reduziu a estrutura administrativa, diminuiu o contingente de terceirizados. Fez o que pode e adotou as medidas amargas que foram necessárias e possíveis de serem adotadas, mas mesmo assim a Lei de Responsabilidade Fiscal continua a ameaçar sua gestão e exigir mais sacrifícios.

O governo, reconheça-se, teve também contratempos endógenos: não conseguiu renovar plenamente a administração e se desvencilhar de um resiliente grupo de servidores em posições diversas, oriundos das hostes de Agnelo Queiroz, portanto, não raro com lealdades ambíguas e objetivos próprios e autônomos. Teve ainda dificuldades na escolha e manejo de algumas nomeações, sofreu com a inexperiência de alguns de seus membros e, ao propor aos distritais acordos programáticos, no lugar dos usuais acordos de interesse obteve adesões de baixa consistência que dificultam suas ações.

Além disso, enfrentou uma dezena de greves de categorias diversas – professores, médicos, enfermeiros, metroviários, Detran, Denatran, DER, CEB, IBRAM, Cultura e inúmeros outros servidores públicos de diversas secretarias – muitas delas inspiradas em promessas recebidas no governo anterior, parte demagógica, portanto, daquela herança maldita. Acertadamente, priorizou os ajustes que inevitavelmente cobram seu preço em críticas e desgaste, freqüentemente exagerados pelos adversários e pelos enganadores, mas efetivos e relevantes.

Pelo que se ouve, a luta pelo equilíbrio administrativo e financeiro continuará e persistirá provavelmente pelos quatro anos de governo, mas a perspectiva do segundo ano de mandato muda profundamente as condições de gestão e o humor da população e conseqüentemente a sua percepção das coisas.

A partir daí, a dimensão administrativa deverá estar mais voltada pra fora do que para dentro. O governo não poderá mais dedicar toda a sua energia ao ajuste de máquina ou retificação de contas públicas, e sim comunicar-se ainda mais com a sociedade. O orçamento do DF, agora, terá sido obra do próprio governo e este será cobrado pelas realizações que todos aguardam, por respostas de gestão que alcancem a vida das pessoas e pela capacidade do governo de priorizar – dentre as inúmeras promessas e expectativas – aquelas que correspondem às mais urgentes, mais viáveis e mais demandadas.

A luta política – bastante difícil para um governo que não dispõe de muitos deputados distritais em sua própria base na Câmara Legislativa – mudará muito, todavia, de diapasão. É mais fácil um opositor se recusar a conceder o aumento de um imposto, do que dificultar a viabilização de creches ou de tempo integral em escolas, mas será um desafio e tanto.

Nessas circunstâncias, é bom lembrarmos que gente apressada errou profundamente quando avaliou os governos de Aécio Neves, de Mário Covas e de muitos outros pelo que viram em seu primeiro ano de governo. Aqui pode se dar o mesmo. O governo Rollemberg, de fato, começa em janeiro.