Enquanto brasileiros se dividem em torno do falso dilema entre lamentar os atentados terroristas de Paris ou o desastre ambiental de Mariana, a verdadeira questão que poderá determinar os acontecimentos a seguir do mundo moderno ainda permanece sem resposta: estaria o ocidente preparado para travar uma batalha em que, independentemente do poderio militar empregado, já se sabe de antemão que não há possibilidade de vitória?

Não é exagero afirmar que, qualquer que seja o resultado das incursões realizadas por forças da França, Rússia e EUA na Síria e no Iraque, haverá perdas para todos os lados. Tome como exemplo a chamada guerra ao terror, que trouxe mais prejuízos do que dividendos aos EUA. Embora tenha gasto cerca de US$ 1,6 trilhão em armamentos e gastos militares, os EUA ainda se ressentem das inúmeras baixas contabilizadas durante as ações no oriente médio.

Apenas os combates no Afeganistão, por exemplo, levaram 2.224 soldados norte-americanos à morte e deixaram outros 19.945 feridos. No Iraque, o número de norte-americanos mortos e feridos foi ainda maior: nada menos que 4.491 norte-americanos perderam a vida em combate e outros 32.244 deixaram o campo de batalha feridos, alguns com sequelas por toda a vida.

Não à toa, o diário El País, ao tratar do desfecho de ambos os conflitos, escreveu que “as guerras do século XXI terminam sem desfiles triunfais nem chuvas de confete”, uma análise que deixa claro que a decisão pela batalha armada, contra quem quer que seja, nem sempre é a mais acertada. O mesmo vale para a reação do Exército francês aos recentes ataques de Paris, que deixaram 130 mortos e mais de 350 feridos, muitos dos quais em estado gravíssimo.

Dois dias após os atentados que aterrorizaram Paris, caças franceses lançaram 20 bombas sobre o reduto do Estado Islâmico em Raqqa, no leste da Síria, destruindo um posto de comando e um campo de treinamento, conforme afirmou o ministério da Defesa daquele país. À imprensa, o presidente francês, François Hollande, avisou que a caçada aos jihadistas seria “implacável” e se daria em todos os terrenos, tanto “interior quanto exterior”.

A menção ao local onde essa batalha será travada não foi por acaso. Afinal, por mais estratégicas que sejam as incursões no oriente médio, que têm por objetivo desarticular o Estado Islâmico nos locais onde a organização tenta expandir seu domínio, neutralizar possíveis ataques no próprio solo francês será tão ou mais importante do que lançar morteiros sobre o Iraque e a Síria. Ainda mais tendo em vista que, diante do avanço tecnológico, planejar e executar um ataque pode ser feito atualmente sem grandes dificuldades.

Já se sabe, por exemplo, que organizações terroristas se comunicam através de diversos jogos de videogame, por meio de consoles como o PlayStation 4. Os mais comuns são jogos de tiro e estratégia, em que o personagem realiza missões em companhia de outros jogadores, via internet.

Os próprios governos passaram a monitorar essas redes, mas sem grande sucesso, dado que a própria dinâmica de alguns jogos permite que facções como o Estado Islâmico se comuniquem atirando balas contra uma parede virtual, por exemplo, até formar uma palavra ou código com informações sobre possíveis alvos para novos ataques.

Outra possibilidade é o uso de redes de comunicação criptografada, como a plataforma Telegram —cuja base fica em Berlim—, que, inclusive, foi utilizada pelo EI para reivindicar a autoria dos ataques a Paris e a derrubada do avião russo da Metrojet na península do Sinai.

Se interceptar as comunicações de grupos jihadistas não será tarefa fácil, o que dizer do monitoramento de possíveis facções islâmicas em um país cuja população muçulmana ultrapassa os 6,5 milhões de habitantes? Digamos que apenas 0,1% dos muçulmanos sejam considerados extremistas. Isso equivaleria a 13 mil pessoas que deveriam ser monitoradas diariamente pela inteligência francesa.

Parece pouco, mas tendo em vista que atentados terroristas geralmente são executados em células de até 10 pessoas, é fácil imaginar porque Hollande mostrou preocupação em combater jihadistas na própria França.

No fim, independentemente do resultado alcançado, nenhum dos lados chegará a vitória sem baixas. Principalmente porque não se trata de uma disputa por territórios ou por riquezas naturais, como o petróleo, mas por um ideário de uma religião que a todos governará. Nessa guerra santa, não faltarão soldados dispostos a morrer em nome de seu deus. A história mostra que é possível derrotar exércitos e governos; ideias, ainda que sanguinárias, jamais!