Estava em um avião, voltando de São Paulo, quando um ex-ministro petista entra e senta ao meu lado. Aguardava o momento certo para iniciar um diálogo, mesmo que breve, quando fui surpreendido pela iniciativa do ex-ministro: “Nos dias de hoje, é sempre uma apreensão entrar em um voo.”

Sacudi a cabeça afirmativamente. Não pude deixar de notar que havia uma certa resignação naquele comentário. “As coisas mudaram muito”, foi a frase que consegui buscar para igualar o nível de enigma da frase dele. Talvez sem entender o que eu quis dizer, ele retrucou “É, não reconhecem o que fizemos.”

O problema é exatamente o oposto. Reconhece-se cada vez mais os erros cometidos por eles. A história é dividida sempre de acordo com a perspectiva dos vencedores e dos perdedores. Em muitos casos, os vencedores de um momento são os perdedores de outros. Por que? Porque a história é interpretada por terceiros.

Sem entrar nos detalhes do certo e errado, por um longo período o governo Lula foi beneficiado pela interpretação positiva da sociedade brasileira em sua maioria. Era o tempo dos vencedores. A interpretação os favorecia e isso acabou por embaralhar a visão que o PT e muitos dos seus líderes tinham de si mesmos. No entanto, em política, não se pode apostar na eterna gratidão, pois isso não existe.

O pragmatismo do voto prevalece. As pessoas votam, ao menos no Brasil, baseadas nos cálculos das vantagens pessoais que podem levar. Esses ganhos são, na maioria dos casos, legítimos e justos, pois é lícito que cada busque as melhores condições (dentro da ética e moralidade, obviamente) para viver.

Em 1979, quando o governo do Xá Reza Pahlavi caiu no Irã e o regime da Revolução Islâmica assumiu o poder, o mandatário deposto viajou, para a França e em seguida para os Estados Unidos. Um jornalista americano perguntou se ele tinha raiva do Aiatolá Khomeini e seu grupo. Pahlavi respondeu que não. Sua raiva era consigo mesmo. Disse que, no começo dos anos 70, o Irã conseguiu aumentar de forma considerável o desenvolvimento social de uma parcela importante da população. Para ele, esse resultado era o suficiente para que a gratidão dessa faixa da sociedade o mantivesse no poder por um longo tempo.

Quando em 1979 seu governo entrou em colapso, e a o regime liderado pelo Aiatolá Khomeini tomou o poder, muitos especialistas e analistas foram surpreendidos pela velocidade dos fatos e pela queda do Xá. Na entrevista ao americano, ele ponderou: “Tenho raiva de mim, pois não soube perceber que quando uma parcela da sociedade se desenvolve a partir de medidas do governo, as expectativas dessa mesma parcela se desenvolvem também.”

Ou seja, quanto mais avanços ocorrem numa determinada parcela da sociedade, maiores e mais sofisticados serão seus anseios futuros. Nada mais justo. Pahlavi prosseguiu: “Eu não soube perceber isso e não me preocupei em preparar o terreno para mudanças. Portanto, não tenho raiva deles, tenho raiva de mim por não ter percebido isso.”

Por mais sábias que sejam as palavras do Xá, não podemos deixar de reconhecer que ele fez um governo afogado em corrupção, principalmente associada à produção de petróleo. Independentemente desse fato, Reza Pahlavi foi mal assessorado, não conhecia bem seu povo e apostou na gratidão. Perdeu.

Reconhecidas as infinitas diferenças, no Brasil algo semelhante aconteceu. Apostando na gratidão, o governo de Dilma ancorou-se nos benefícios sociais dados a milhões de brasileiros e, de fato, suas vidas mudaram para melhor. No entanto, após dez anos, os R$ 90 reais de Bolsa Família não lhes basta. Esses brasileiros querem algo além, como um ponto de largada para as oportunidades da vida de forma semelhante ao dos que não precisam do Bolsa Família.

O Xá do Irã caiu porque não soube ler seu povo, apostou na gratidão política, apresentou muitos sinais de soberba e produziu fantásticos mecanismos de corrupção, exaurindo a paciência do povo. Espero que aqui, o dia seguinte não seja radical e agressivo como foi lá.

O ex-ministro petista que viajou comigo desceu sorridente, pois a falta de vaia, comum a tantos políticos em ambientes públicos, pode ter sido interpretada por ele como um sinal de gratidão “por tudo que fizeram”.