O ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungamann, é um dos melhores intérpretes da realidade brasileira. Estudioso da crise que trava o país no momento, o Jungmann comparou o país de hoje aquele da época do impeachment de Fernando Collor, em 1992. “Temos um governo sem saída e incapaz de superar a crise pelas próprias forças. A oposição, até aqui, não construiu uma solução. O que tudo isso significa? A política não vai resolver a crise. A crise é que vai resolver a política”, afirmou ele. A seguir sua entrevista:

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), vai ser cassado?
Acho que ele perdeu o controle sobre a situação e a autoridade. Isso se verifica com os repetidos gestos contra ele. Além disso, pesam duas expectativas de processos: um, sobre o qual ele tem controle do andamento, que ocorre no Conselho de Ética, e o outro, sobre o qual ele não tem controle, que acontece no Supremo Tribunal Federal. A qualquer momento, o ministro Teori Zavascki, do STF, pode levar o caso dele adiante. Não vejo outra alternativa para ele senão deixar a presidência da Câmara dos Deputados.

Já se fala de nomes para sucedê-lo: Leonardo Picciani (PMDB-RJ), Heráclito Fortes (PSB-PI), Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA)… Isso poderá abrir uma batalha política?
Isso é muito mais um sinal de fraqueza do Cunha do que efetivamente a construção de uma alternância. O governo já demonstrou que não tem maioria de votos suficientes para fazer um presidente da Câmara. Isso já ficou demonstrado bem antes de a crise política e econômica se agravar.

Qual a situação real de Cunha no Conselho de Ética? As pressões sociais e da mídia podem inviabilizar a tentativa de blindagem da parte dele?
Cunha conta com aliados. Alguns são companheiros de projeto de poder; outros, aliados de ocasião. Refiro-me ao governo e à oposição. E isso pode a qualquer momento mudar. Ou seja, se desestruturar. Repito aqui uma frase do Ibsen Pinheiro (ex-presidente da Câmara) quando recebia o pedido de impeachment do Fernando Collor de Mello, em 1992: “Esta Casa, no caso, a Câmara dos Deputados, faz aquilo que o povo quer em última instância”. Vai depender, evidentemente, da pressão, que tende a se ampliar. Podem ruir as alianças de ocasião do Cunha. Os dias dele de equilibrista, ao que parece, estão ser eduzindo. Não posso dizer que estão com os dias contados. Acho que a pressão popular pode, efetivamente, deslocar esses apoios que ele desfruta no Conselho de Ética e muito mais ainda no plenário da Câmara.

As expectativas para os próximos anos são negativas. O sr. acha que ainda falta muito para retomarmos à estabilização?
Temos um governo sem saída e incapaz de superar a crise pelas próprias forças. A oposição, até aqui, não construiu uma solução. O que tudo isso significa? A política não vai resolver a crise. A crise é que vai resolver a política. Venho estudando o processo de impeachment do Collor e buscando paralelos e diferenças com a atualidade. Naquela época, a política andou adiante ou ao lado da crise. Neste preciso momento, com governo sem saída e oposição sem solução, vivemos um impasse, uma deterioração, um vazio. Se isso permanecer – a violência, as greves, a desordem –, com governos sem condições de pagar a folha de pessoal até o final do ano, como o Rio Grande do Sul e, pelo menos, mais nove estados, pode se transformar numa crise adiante da solução política. Obviamente, será cobrado (dos estados) um médio ou grande custo. Isso, para mim, é o coração das trevas da situação em que estamos. Vivemos uma paralisia “frenética”. Corremos e não saímos do canto.

Qual a saída?
No período do Collor, após dois meses e meio de governo durante os quais encurralou Supremo e o Legislativo e assumiu uma presidência delegativa, acima dos demais poderes, ele só fez cair. Em vários momentos, ele parecia respirar. O mais notório foi o Ministério de Notáveis, montado durante o auge das denúncias contra ele. Dilma não chegou a montar um Ministério de Notáveis, mas trocou ministros da cozinha do Palácio do Planalto e deu cargos para o PMDB. E o que vimos? Perdeu votações de projetos absolutamente comezinhos. O governo já dá sinais de esgotamento das mudanças que fez. O grande problema desse governo é a falta de rumo. No presidencialismo brasileiro, ou presidente ou a crise é forte. Não existe meio termo. Vemos uma crise forte que não tem como contrapartida solução nenhuma. A oposição também não construiu até aqui uma unidade, diferentemente do que ocorreu durante o governo Collor. PMDB e PSDB montaram uma coalizão permanente a partir da instalação da CPMI. Aquilo incentivou o movimento pela ética na política, que concentrou mais de 180 entidades. Não há nada parecido com isso hoje. Lembro aos obcecados pelo impeachment de Dilma Rousseff que existem enormes dessemelhanças com o período do governo Collor.

O sr. já leu “O impeachment de Fernando Collor”, do sociólogo Basílio Sallum? Gostou?
É bom para recordar e ver como se construiu o processo. Por outro lado, ele desce muito aos detalhes e isso o torna, às vezes, cansativo. Mas ele é muito descritivo e documenta de uma maneira muito importante toda aquela situação. Ali você consegue fazer paralelos e dessemelhanças com o momento atual. Uma delas é que o presidente Collor não se preocupou, em nenhum momento, em formar uma maioria orgânica estável no Congresso. O governo Dilma ainda tem enraizamento e base. Outra diferença é que não há, ainda, a construção daquilo que foi decisivo para a derrubada do Collor: a coalizão de um centro político que conduziu o processo e, apoiado pela sociedade, foi aos poucos tirando a autoridade de um presidente cuja presunção de culpa estava cristalina e transparente. A investigação promovida pela CPMI obteve dados vindos do Banco Central de que as contas do presidente tinham sido abastecidas com dinheiro do PC Farias. Antes disso, houve outros fatos como as denúncias do Pedro Collor.

Havia uma narrativa?
Esse roteiro não está presente agora. É importante lembrar também que, após o impeachment, a narrativa foi única. Não existe hoje ninguém que diga que aquele processo não foi a melhor opção para o país, resultado do isolamento político a que o Collor chegou. Não há dúvida de que haverá uma disputa duríssima de narrativa pós-impeachment de Dilma caso realmente ocorra. É preciso estar extremamente atento à letalidade e à legitimidade dele. Há o risco de, nos embates após o processo e com as dificuldades que o país certamente enfrentará, os derrotados renascerem como fênix. Isso não é brinquedo.

Predomina uma forte ambiguidade de percepções sobre a necessidade do impeachment. O remédio é, mesmo, esse?
Nenhum dos grandes stakeholders da política nacional e da oposição assumiu de forma clara, franca, destemida e objetiva a tese do impeachment. O Alckmin, o Serra, o Aécio, o Fernando Henrique e a Marina não falam isso.

É excesso de cuidado ou falta de convicção?
É algo com o qual as pessoas têm certo cuidado. Como se diz em Pernambuco, a pressa que aniquila o verso. Tem que fugir dela. No entanto, honestamente, não vejo saída para esse governo. No presidencialismo, cabe ao presidente da República dar rumo ao Estado. Se não tem é porque não tem solução.

O que acha das receitas do governo para superar a destruição da receita, tais como DRU, repatriação de recursos e CPMF?
Vamos pela ordem de impossibilidade. Sobre a CPMF, não creio que a articulação com prefeitos e governos vá resultar numa mudança de posição. A questão central da repatriação requer confiança. Tem que haver confiança no governo para proceder uma anistia dessa ordem. E não há isso. O projeto da repatriação está desenhado e talhado para enterrar a Lava-Jato. Já disse aos líderes governistas que eles estão botando preço na dignidade do país. Dignidade, vergonha e ética não têm preço. A respeito da DRU, é o único projeto que tem certa viabilidade desde que sejam feitas algumas mudanças. Mas será uma batalha duríssima.

Há uma série de tentativas para colocar o país nos eixos, mas tudo isso pode ser anulado a qualquer momento por uma sentença da Lava-Jato. Como o senhor vê essa possibilidade?
A Lava-Jato é o imponderável que alcança a política e a economia. Ela é o impeditivo a que se façam alianças para resolver a situação. Você não sabe quem está morto ou vivo. O risco é formar uma aliança hoje e amanhã descobrir que ela está acabada. Isso paralisa tudo e se torna, dentro da equação da crise, um fator decisivo e incontrolável. A Lava-Jato coloca a política sob suspeição. Alguém já até disse, com certo exagero, que hoje nós temos um “Congresso de réus”. Não concordo, mas a verdade é que a indeterminação permite que alguém venha especular com isso. Não há nada pior para você equacionar, formular, organizar uma estratégia ou dar um rumo à política do que ter uma variável crucial, essencial e fora do controle.